Final do expediente. Lá estava eu mais uma vez perdida no blog *Dele. Ah, ele… Ele que nem desconfia que já foi pra minha prateleira de ídolos – Até porque ele não te conhece, Flávia – É, mas ele é meu amigo de orkut, tá, tá? – Não importa – Droga.
Me deparei com um texto que fez eu rir tão alto e ter a certeza que existe, com certeza, alguma ligação entre nós – Cala a boca, Flávia – Juro que estava pensando muito em escrever sobre isso esses dias.
Eu sempre fiz mais o estilo garota do rio, calor que provoca arrepio (???) do que alguma coisa acontece em meu coração, que só quando cruza o Ipiranga e Av. São João (nunca entendi o porque disso, acho que era só pra rimar com coração). Mas, certamente, em minha última viagem pro incrível mundo paulistano-meu, alguma coisa, realmente, aconteceu. Voltei apaixonada. Por muitos motivos.
É, uma garota exacerbadamente (acabei de ler isso em algum lugar) louca por praia, bijouterias de hippies e que até dia desses tinha mechas loiras no cabelo, apaixonada… por São Paulo! Quem se apaixona por São Paulo fora o Caetano Veloso? É uma cidade grande, com trânsito estressante, sem farofa e de pessoas estranhas. Mas eu me apaixonei e daí? Tem explicação pra isso? Também já namorei caras estressantes e estranhos.
Uma das coisas que mais me irritam até hoje no Rio é o sotaque carioáca. Nunca entendi porque eles colocam a letra A depois das vogais. Juro que esse era um dos meus projetos de estudo, mas Ele, claro tinha que ser ele, conseguiu expressar o que eu queria fazer pro mundo há muito tempo.
“A única ligação entre São Paulo e o Rio de Janeiro é a Dutra. Fora isso, tudo nos afasta: o clima, a geografia, os costumes e, claro, o idioma — ou você vai me dizer que João Gordo e Evandro Mesquita falam a mesma língua? (…)O choque de civilizações, no entanto, está com os dias contados. Tendo em vista a amizade entre os povos, a paz mundial e os bolinhos de bacalhau do Jobi, resolvi fazer alguma coisa. Mergulhei em intensos estudos carnavalescos, escaldantes pesquisas praianas – entre outras experiências extremamente arriscadas (para um paulista) — e trouxe à luz, acredito, uma grande contribuição para o entendimento entre os dois estados: a Pequena gramática do carioquês moderno.
Nela, cheguei às três regras básicas da língua falada por aquele povo: a regra do R, a regra do S e a regra das vogais. As duas primeiras são de conhecimento geral: R no final da palavra ou no meio se fala arrastado (porrrrrrta, perrrrrrto), e o S transforma-se em X (mixxxxxto-quente, paxxxxta de dentexxxx). É na regra sobre as vogais, no entanto, que consiste a originalidade da minha descoberta e é ela que fará com que a minha gramática, assim como meu nome, ainda ressoem por aí muitos séculos depois que eu tiver ouvido repicar o último tamborim.
Enquanto em São Paulo somos alfabetizados com o A – E – I – O – U, as crianças do Rio de Janeiro aprendem A – Ea – Ia – Oa – Ua. Sim, há um A depois de cada vogal. Pegue qualquer palavra, como copo, pé e carro, por exemplo, e aplique a regra das vogais. Agora, fale em voz alta: coapoa, péa, carroa. Viu só? Aía, éa sóa voacêa pôarrrr A eam tuadoa, troacarrr S poarrr X e eaxxxticarrr o R quea fiaca óatiamoa.
O caminho inverso também funciona. Ao ouvir uma frase em carioquês, por exemplo: “Tua éa móa manéa, paualiaxxxxta oatarioa, voalta pra Móoaca”, transcreva-a, subtraia os As sobressalentes e você terá a sentença em paulistês.
Embora seja um grande avanço em face da estagnação em que estavam os estudos do carioquês por estas bandas, minha gramática ainda tem um enorme desafio a esclarecer: como é que o S vira R na palavra mearrrrmoa (mesmo)? E, mais ainda, por que é só nessa palavra? Tema apaixonante ao qual, prometo, retornarei em breve.”
*Dele: filho mais velho do Seu Mário Prata, o Antônio.