Era mais uma noite de sábado chuvosa, como a maioria das noites de abril vinham sendo. Estava num aniversário, desses de família, onde se reúne todo o clã e já estava deprimida o suficiente para desperdiçar mais um “precioso” sábado a noite ali. Foi quando recebi a ligação de um amigo, convidando pra sair, que no momento se tornava meu herói, me salvando das garras do tédio. O programa não poderia ser mais perfeito: sair pra beber, com um milhão de amigos (ou não) e aproveitar o resto do sábado chuvoso. Liguei para as amigas, elas iam para uma boate qual meu humor não estava nenhum pouco disposto a agüentar (e nem meu bolso pagar). Me direcionei sozinha, até o famoso pub da cidade onde meu amigo e sua patota de conhecidos se encontravam. Nunca gostei de chegar sozinha nos lugares, até porque sou ligeiramente muito cega e nunca consigo reconhecer meus amigos, por isso já se tornou de praxe eu chegar e todo mundo da mesa levantar os braços, numa forma desesperadora (e ridícula) para serem vistos pela minha pessoa cega. Não costumo usar os malditos óculos a noite para não perder o charme (charme?) e lentes? Bom, isso é assunto para outra conversa, péssimas lembranças…Mas, enfim, tive que agüentar, minhas opções se limitavam em: 1) Chegar sozinha, perder horas tentando reconhecer alguma cara conhecida e beber com uns amigos e supostos outros novos. 2) Pagar um milhão de reais para agüentar fumaça artificial, gente chata e música ruim do lado das amigas ou 3) ficar em casa, curtindo a fossa. Ou era a primeira opção ou a primeira opção.
Até que não demorei muito a encontrá-los, pois o suposto amigo em questão já sabia do meu problema e logo tardou em me ver para fazer seus movimentos desesperados para enxergá-lo. Eu e todos os presentes do local, para minha felicidade. Sentei, com meus três únicos conhecidos de uma mesa que deveria ter umas trinta pessoas. Muitas bohemias e amendoins depois, ele surge, do nada. Camisa preta, barba por fazer e fumando um cigarro. Não poderia ser mais charmoso. De onde ele apareceu, eu não sei, mas fiquei agoniadíssima com aquela presença estranha, como há tempos não ficava. Perdi o ar, fiquei nervosa, aquelas borboletinhas batendo asas no estômago, enquanto ainda fazia um esforço concentrado para parar de olhar para o sorriso dele. Era uma risada gostosa, que me encantou logo de cara. A mais gostosa que eu conhecia até então.
Ele era o primo do meu amigo. Chegou e sentou do meu lado, como se eu o estivesse esperando. Pegou um cigarro e perguntou se eu me importava. Nem me lembro a última vez que tinham me perguntado isso. Disse que não, ele então acendeu e deu um sorriso, jogando a baforada pro outro lado. Começamos a conversar e em minutos, descobrimos milhões de afinidades bestas. Ele era bonito e gente boa, se vestia bem, mas não era fútil, era engraçado, mas não era leso e ainda dançava e bem, sem parecer fresco ou ridículo, coisa rara de encontrar. Me encantei logo de cara, foi impossível controlar.
- Tu estudaste no Nazaré?
- Sim. Porque? – Perguntei
- Rá, sabia… Olhando aqui ao redor posso dizer quem estudou ou não no nazaré.
- Isso é algum tipo de preconceito? – quase virando um soco no cidadão.
- De maneira alguma.
- Hum… E onde tu estudaste?
- No moderno.
- Tinha que ser…
- Porque?
- Porque… “olhando aqui ao redor posso dizer quem estudou ou não no moderno”.
- …
Não nos vimos mais depois desse dia e nada aconteceu também. Nenhum beijo, abraço, aperto de mão, troca de olhar, endereço de MSN, orkut… Nada. Nenhum sinal ou vestígio de interesse de ambos. Fingimos bem. Eu não desconfiei e nem ele até descobrir um (já) namorado de superar todas e quaisquer expectativas. Ainda descobrirei que ele é uma fraude, tenho certeza.