Arquivo para Maio, 2007

Alforria.

free!

Hoje saí da prisão. Não que as algemas ainda machucassem os pulsos, mas eu ainda insistia em deixá-las, imperceptivelmente. Provavelmente, eu havia esquecido que elas ainda estavam aqui. Vez ou outra me voltavam as lembranças que faziam as algemas apertar e doer. Mas, nunca deixei sangrar.
Hoje, sou grata por cada decepção que causaste por aqui. Cada uma, da coleção que delicadamente montei, teve um propósito diferente e as peguei, com todo o carinho e paciência, e as transformei em experiência na minha vida e com isso, um ar de maturidade, que jamais terás.
Como saberia que, hora ou outra esse dia chegaria, fiquei sentada aqui, de braços cruzados, esperando o tempo passar. Sim, acredite, logo ele, o comodismo, tornou-se o meu principal aliado. Tuas mentiras e vaidades esdrúxulas tão insuportáveis quanto tua insistente soberba, aliás, tuas qualidades mais destacáveis, me fizeram conhecer valores que ninguém jamais teria a pretensão de me ensinar e a cada dia, só faz reforçar o ser patético e medíocre que, incontrolavelmente, te tornaste. Meu presente é o meu orgulho em poder te ver aí tão embaixo, perdido no teu próprio mundo de mentirinha e estar aqui de cima, com aquele meu sorriso de orelha a orelha, aquele que tu tanto elogiaste. Poderias ser uma lembrança, chegaste a ser repulsivo e hoje, nenhum nome me causa tanta indiferença ou pior, diria mais, gratidão.
E é por isso que eu te agradeço, de verdade, por teres ajudado a me transformar na mulher que sou hoje e sinto ao saber, que você nunca terá a mesma sorte.

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O primo moderno.

Era mais uma noite de sábado chuvosa, como a maioria das noites de abril vinham sendo. Estava num aniversário, desses de família, onde se reúne todo o clã e já estava deprimida o suficiente para desperdiçar mais um “precioso” sábado a noite ali. Foi quando recebi a ligação de um amigo, convidando pra sair, que no momento se tornava meu herói, me salvando das garras do tédio. O programa não poderia ser mais perfeito: sair pra beber, com um milhão de amigos (ou não) e aproveitar o resto do sábado chuvoso. Liguei para as amigas, elas iam para uma boate qual meu humor não estava nenhum pouco disposto a agüentar (e nem meu bolso pagar). Me direcionei sozinha, até o famoso pub da cidade onde meu amigo e sua patota de conhecidos se encontravam. Nunca gostei de chegar sozinha nos lugares, até porque sou ligeiramente muito cega e nunca consigo reconhecer meus amigos, por isso já se tornou de praxe eu chegar e todo mundo da mesa levantar os braços, numa forma desesperadora (e ridícula) para serem vistos pela minha pessoa cega. Não costumo usar os malditos óculos a noite para não perder o charme (charme?) e lentes? Bom, isso é assunto para outra conversa, péssimas lembranças…Mas, enfim, tive que agüentar, minhas opções se limitavam em: 1) Chegar sozinha, perder horas tentando reconhecer alguma cara conhecida e beber com uns amigos e supostos outros novos. 2) Pagar um milhão de reais para agüentar fumaça artificial, gente chata e música ruim do lado das amigas ou 3) ficar em casa, curtindo a fossa. Ou era a primeira opção ou a primeira opção.
Até que não demorei muito a encontrá-los, pois o suposto amigo em questão já sabia do meu problema e logo tardou em me ver para fazer seus movimentos desesperados para enxergá-lo. Eu e todos os presentes do local, para minha felicidade. Sentei, com meus três únicos conhecidos de uma mesa que deveria ter umas trinta pessoas. Muitas bohemias e amendoins depois, ele surge, do nada. Camisa preta, barba por fazer e fumando um cigarro. Não poderia ser mais charmoso. De onde ele apareceu, eu não sei, mas fiquei agoniadíssima com aquela presença estranha, como há tempos não ficava. Perdi o ar, fiquei nervosa, aquelas borboletinhas batendo asas no estômago, enquanto ainda fazia um esforço concentrado para parar de olhar para o sorriso dele. Era uma risada gostosa, que me encantou logo de cara. A mais gostosa que eu conhecia até então.
Ele era o primo do meu amigo. Chegou e sentou do meu lado, como se eu o estivesse esperando. Pegou um cigarro e perguntou se eu me importava. Nem me lembro a última vez que tinham me perguntado isso. Disse que não, ele então acendeu e deu um sorriso, jogando a baforada pro outro lado. Começamos a conversar e em minutos, descobrimos milhões de afinidades bestas. Ele era bonito e gente boa, se vestia bem, mas não era fútil, era engraçado, mas não era leso e ainda dançava e bem, sem parecer fresco ou ridículo, coisa rara de encontrar. Me encantei logo de cara, foi impossível controlar.
- Tu estudaste no Nazaré?
- Sim. Porque? – Perguntei
- Rá, sabia… Olhando aqui ao redor posso dizer quem estudou ou não no nazaré.
- Isso é algum tipo de preconceito? – quase virando um soco no cidadão.
- De maneira alguma.
- Hum… E onde tu estudaste?
- No moderno.
- Tinha que ser…
- Porque?
- Porque… “olhando aqui ao redor posso dizer quem estudou ou não no moderno”.
- …

Não nos vimos mais depois desse dia e nada aconteceu também. Nenhum beijo, abraço, aperto de mão, troca de olhar, endereço de MSN, orkut… Nada. Nenhum sinal ou vestígio de interesse de ambos. Fingimos bem. Eu não desconfiei e nem ele até descobrir um (já) namorado de superar todas e quaisquer expectativas. Ainda descobrirei que ele é uma fraude, tenho certeza.

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“eu torço pro amanhã vir…”

Hoje, a minha sorte no orkut dizia: Uma surpresa agradável está a sua espera. Essas sortes do orkut são tudo furada, já deu que eu ia realizar todos os meus sonhos e que eu ia fazer uma viagem pra muito longe. Anrran, esse ano nem pra comer um pastel em Mosqueiro eu fui. Porém, quando li essa sorte, fiquei agoniada, pois era a primeira vez que o orkut estava parecendo acertar, depois de muitas tentativas ilusórias.
Eu já havia esquecido como eram aquelas sensações preliminares de relacionamentos, como contar as horas e ficar ansiosa para chegar o horário que tínhamos combinado, igual uma adolescente. A espera dele chegar no prédio e olhar a cada segundo o celular para ver se vai aparecer o nome dele brilhando no visor ou ficar nervosa ao sentir a bolsa tremer. A vontade quase incontrolável de sentar do lado no carro e querer pegar na coxa, poder tirar a sandália e jogar as pernas, esquecer totalmente os modos. Gaguejar assuntos bestas e não conseguir controlar fazer comentários irônicos como se já o conhecesse há milhões de anos. Ler e reler 50 mil vezes o que ele disse no MSN e largar aquele sorrisão pro monitor e depois perceber a cara de idiota que está fazendo. Perder horas na escolha de uma blusa que tente não me deixar gorda e sempre acabar escolhendo a pior. Ouvir ele te elogiando e tentar não ficar sem graça ou largar aquele sorrisão de felicidade, quando na verdade as pernas já estão bambas e o coração prestes a explodir. Tentativas frustradas de conversar sem ficar olhando pra ele e perceber o quanto ele é engraçado, ou talvez nem seja tanto, mas porque realmente fico de bom-humor ao lado dele. Não cansar de elogiar os cílios dele, os mais curvados do mundo e morrer de inveja. Rir ao lembrar dos tantos papos vazios sobre emprego, pessoas em comum, clima da cidade, sempre fingindo interesse quando na verdade não se quer conversar, apenas. Tentar se controlar para não abraçá-lo. Ficar tímida, igual uma criança, ao notar que ele está olhando e perceber que é realmente verdade aquilo das revistas de perder a noção de direção, tempo, espaço e tamanho ao lado dele. Um sorriso que, imperceptivelmente, te faz sorrir também e até ser abordada pelo chefe, no trabalho, pela cara de nada por estar lembrando dele.

Sensações como essas já haviam sido guardadas da minha vida. Separei em uma caixinha e achei que nunca fosse voltar a usá-las. É como se eu tirasse a poeira dessas antigas sensações guardadas no armário. Tinha realmente esquecido o quanto é bom e o quanto faz bem, pra qualquer um que use o coração, ter alguém que se gosta do lado. Obrigada por me fazer usá-las em tão pouco tempo e desde o primeiro momento.

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