Era sempre assim, toda vez que entrava em alguma livraria. Olhava a capa, folheava algumas páginas, mas persistia relutante em comprar. A capa não podia me seduzir mais. Um filhote de labrador amarelo, olhando com uma cara de me leia.
Relutei muito, mas no fim acabei sendo vencida e como já havia sendo seduzida há meses, garanti finalmente meu exemplar de Marley e eu , de John Grogan.
John Grogan é um colunista americano e não é nenhum escritor famoso com uma coleção de livros premiados. Aliás, não espere uma grande obra da literatura em Marley e eu, na verdade, ele, o autor, é mais um que, como eu, é apaixonado por cachorros.
Marley e eu é um dos livros mais bobos, fofos, engraçados, tristes e apaixonantes que já li. Não há como não se encantar pelo cão terrível e inexplicavelmente super amado que era o Marley. Lendo as histórias foi impossível não lembrar da minha velha poodle black, a pérola.
Em meados de 96, ou 95, não me recordo, papai chegou em casa carregando uma bolinha de pêlos preta com um lacinho amarelo. Horas depois fui reconhecer que era uma poodle. Na época, ter poodles era o máximo e a maioria eram brancos. Ter uma poodle preta chegava a ser raro.
Não lembro de outra situação em que tenha ficado mais feliz ao ver meu pai chegando com aquela bolinha de pêlos com um mês de vida. Ela, em questão de dias, virou minha grande companheira. Dormia comigo e sempre quando eu acordava, lá estava ela fazendo um esforço enorme pra se manter em pé e colocar a cabeça na ponta da cama para me lamber.
Quando se é criança, não temos noção de cachorros, mas sempre senti que minha poodle não era muito normal. Ela sempre foi muito eufórica, agitada e adorava desconhecidos. Falávamos que se algum dia algum ladrão entrasse em casa, a pérola se tornaria a melhor amiga dele e ainda ia pular freneticamente implorando para ser carregada.
Um dia, voltando de uma festa, descobrimos que a pérola simplesmente tinha desaparecido. Mamãe por um minuto deixou a porta do apartamento encostada e a Pérola simplesmente fugiu.
Quando já estávamos no meio da rua, desesperadas e aflitas sem saber o que fazer, o interfone começou a tocar. Era a vizinha do terceiro andar, qual tinha se mudado há poucos meses e não tínhamos muito contato. Era ela avisando que uma poodle preta, pequena e consideravelmente louca havia parado lá naquele andar. Ela se encantou tanto pela pérola que acabou tirando uma foto dela, umas das únicas e em um dos raros momentos em que ela parou quieta e fez uma pose.

Pérola, ainda menina e cheia de pose, quando fugiu para a casa da vizinha do 3º andar.
O problema começou quando a bolinha de pelo preto que havia chegado em casa aquele dia, deixou de ser filhote. Ela cresceu e se descobriu uma destruidora de móveis e sapatos, se tornando uma vergonha para os poodles. Ela descobriu que amava fazer xixi e outras necessidades no tapete razoavelmente caro da mamãe. E não adiantava ensinar para forçá-la fazer em outros lugares ou trancá-la na cozinha. Pérola era esperta e não tínhamos mais forças para controla-la. Foi quando a mamãe deu o veredicto de que ela já estava grande demais para um apartamento de dois quartos, e sugeriu que fosse morar na casa da vovó.
Relutei, mas sem escolha, Pérola se mudou para o quintal e jardim da, extinta, casa da Vovó. Pérola adorou a mudança. Ela tinha todo o espaço do mundo para correr, caçar qualquer coisa que se mexesse e que pairasse no quintal, arrancar as flores do jardim, entre outros atividades caninas. Sentia a falta da Pérola dormindo no meu quarto e das tentativas frustradas em me acordar.
Até que um dia, Pérola já com seis anos, cheguei em casa e mamãe estava chorosa e tensa falando ao telefone. Como era comum encontrar minha mãe assim, não dei importância, até ela me chamar e contar o que tinha acontecido. Pérola simplesmente tinha desaparecido.
Até hoje não se sabe o que realmente aconteceu com ela, se ela fugiu ou se alguém a roubou do jardim. Ela era doida, maluca, inconseqüente aos extremos para uma poodle, mas não era mal-criada a ponto de fugir.
Chorei por meses. Chegava a me sentir mal por estar tão triste por causa um cachorro, enquanto muitas crianças morriam ou desapareciam por aí.
Sofro de um mal absurdo que é o apego. Por ser filha única, costumo me apegar muito as pessoas/coisas/animais que gosto. A pérola não era mais uma cachorra, dessas que a família pega pra enfeitar ou brincar de vez em quando. Ela era parte da minha família, da minha história e esteve me apoiando, de certa forma, em algumas situações mais do que muitos amigos humanos. É loucura dizer isso, mas eu sei que a pérola me escutava e no fundo me entendia. Os apaixonados por cachorros entendem o que eu digo e o apego avassalador que criamos em torno deles são justificáveis. Não conseguia e me doía imaginar chegar na casa da minha avó e não encontra-la mais, pulando em cima de mim e sujando minha roupa.
Talvez o fato dela ter sumido, possa ter sido alguma intervenção divina, para me poupar do sofrimento maior que era ter que agüentar uma morte.
Dizem que é inexplicável o sentimento que criamos em torno dos cães, eu não acho. Somente os eternos e confessos amantes de cachorro, como eu, conseguem entender.
Tem um trecho do livro do Grogan, que resume mais ou menos esse sentimento:
“Seria possível para um cachorro pudesse mostrar aos seres humanos o que realmente importava na vida? Eu acreditava que sim. Lealdade. Coragem. Devoção. Simplicidade. Alegria. E também as coisas que não tinha importância. Um cão não precisa de carros modernos, palacetes ou roupas de grife. Símbolos de status não significam nada para ele. Um pedaço de madeira encontrado na praia seve. Um cão não julga os outros por sua cor, credo ou classe, mas por quem são por dentro. Um cão não se importa se você é rico ou pobre, educado ou analfabeto, inteligente ou burro. Se você lhe der seu coração, ele lhe dará o dele. É realmente muito simples, mas, mesmo assim, nós humanos, tão mais sábios e sofisticados, sempre tivemos problemas para descobrir o que realmente importa ou não…”
- Quem me motivou mais a comprar o livro foi a Thais, que como eu também é apaixonada por cachorros. Ela também cita o livro em seu blog. Dá uma passada lá. ![]()










